Transição energética: o que pode fazer hoje?

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A meta é alcançável, mas exige um esforço concertado que começa na casa de cada um. Descubra 6 formas práticas de começar já hoje a fazer a sua parte para facilitar a transição energética, e como a financiar.

O que é a transição energética?

A transição energética consiste na substituição gradual de fontes de energia por outras mais eficientes. O conceito parte da migração de matrizes poluentes, como combustíveis fósseis, para fontes de energia renováveis, como as hidroelétricas, eólicas, solares e de biomassas.

Considerando que a esmagadora maioria das atividades humanas se baseia no consumo de energias não renováveis, facilmente se entende que a transição energética não é um processo fácil e imediato. Requer uma mudança de paradigma mundial que altera a forma como a humanidade tem vivido até agora, para um novo estado das coisas, com um olhar mais amplo e sistémico para a sustentabilidade ambiental e social.

O conceito de transição energética não é novo na história. A humanidade já enfrentou outras grandes mudanças fundamentais, como a passagem da madeira para o carvão, e do carvão para o petróleo. Contudo, a transição energética que vivemos hoje é muito mais urgente, porque visa proteger o planeta da maior ameaça que alguma vez já enfrentou, afetando pessoas, animais e plantas.

Porque é urgente a transição energética?

Os dados são inquietantes. Da Organização Meteorológica Mundial (OMM) chegam registos doa aceleração do aquecimento global, sendo que 2019 e 2020 foram os anos mais quentes desde 1880, com tendência a intensificar-se. A velocidade do aumento da temperatura é alarmante, provocando o degelo dos glaciares, o aumento do nível do mar, desertificação, fenómenos climáticos extremos e catástrofes naturais, com danos incalculáveis.

Para superar estes desafios, os Estados-membros da União Europeia assinaram o famoso Acordo de Paris, em 2015, no qual se comprometem a manter o aquecimento global abaixo de 2 °C, de preferência a 1,5°C, em comparação com os níveis pré-industriais.

Como problema mundial que é, a transição energética só é possível se todos os países do mundo trabalharem em colaboração – e, de facto, todos os países da União Europeia ratificaram o acordo, ainda que não existam quaisquer sanções às nações que não o cumprirem.

6 dicas práticas para facilitar a transição energética

Atualmente, há cada vez mais soluções para aumentar a eficiência energética das casas. Aqui estão algumas melhorias que pode realizar para que a casa se torne mais eficiente, bem como os incentivos do Estado a que pode recorrer para as financiar. Deixamos também a indicação de alguns hábitos comportamentais a adotar para dar importantes passos sustentáveis no seu dia-a-dia.

1. Tire partido da orientação solar da sua casa

A orientação ideal de uma casa é a sul, onde devem também localizar-se as salas e as janelas maiores, e a Norte deve estar o mínimo de janelas. Depois, a nascente e a poente devem estar os estores e as portadas, de forma a controlar a entrada de energia solar. Obviamente que não pode mudar a orientação da casa, mas pode tomar algumas medidas em função desta característica.

Durante o verão, as persianas e cortinas devem estar fechadas durante o dia para evitar a entrada de calor, recomendando-se abrir as janelas à noite para arrefecer a casa. Durante o inverno, deve ser feito o oposto, obtendo-se assim condições de climatização ideais durante todo o ano. Desta forma, é mais fácil aproveitar o calor do sol para climatizar a casa, evitando o recurso ao ar-condicionado ou a aquecedores.

2. Garanta o isolamento térmico da sua casa

O isolamento térmico é essencial para a eficiência energética da casa, porque evita perda de calor e entrada de frio. Um casa bem isolada vai evitar o sobreaquecimento no verão, e garantir a retenção de calor no inverno.

Pode aumentar o isolamento térmico da sua casa recorrendo a materiais de construção isolantes. Por exemplo, considerando que o telhado ou o teto são dos locais que mais influenciam a temperatura interior, poderá colocar painéis isolantes entre a estrutura e o telhado ou, se preferir uma solução mais simples e económica, fixar rolos e painéis debaixo da estrutura.

Por outro lado, as paredes voltadas para o exterior podem ser isoladas por dentro, e este isolamento pode ainda reduzir o ruído exterior. Um dos sistemas mais utilizados é o ETICS, também conhecido como “capoto”, que utiliza várias camadas de diferentes materiais para garantir um isolamento térmico e sonoro superior.

As portas e janelas devem estar bem vedadas para não deixar entrar e sair ar. Considere substituí-las por alternativas com vidros duplos e boa fixação ou, se quiser adiar um pouco esse investimento, fitas de calafetagem e enchimentos de aplicação em fissuras. São soluções provisórias rápidas e baratas.

3. Equipe a sua casa com aparelhos de eficiência energética

Os equipamentos de maior eficiência energética podem ser mais caros, mas compensam a longo prazo na fatura mensal – principalmente se forem utilizados de forma intensiva. Assim, faça uma revisão aos aparelhos lá em casa e confirme a classificação energética de cada um. Dê especial atenção ao frigorífico, máquina de lavar roupa e máquina de lavar louça, que representam a maior fatia do consumo energético familiar mensal.

Considere substituí-los por outros mais eficientes, até mesmo para o aquecimento da água sanitária. Existem sistemas de produção de água quente, como as bombas de calor e termoacumuladores híbridos, que reduzem em mais de 50% do consumo de energia para aquecer água.

4. Considere instalar painéis solares

Os painéis solares são uma outra forma de tornar as casas mais eficientes do ponto de vista energético. É certo que requerem um investimento inicial expressivo e, por isso, podem não ser a solução ideal se mora sozinho, se não tem filhos ou se reside numa casa pequena. Contudo, os painéis solares podem ser uma boa alternativa para famílias que residam em moradias, onde os consumos energéticos são elevados. Nestes casos, podem diminuir o consumo elétrico em até 60%.

Pode instalar painéis solares térmicos, que captam a energia solar diária para aquecer a água acumulada num depósito, ou painéis solares fotovoltaicos, que convertem a luz solar em energia elétrica para ser utilizada na casa. É importante referir que o investimento inicial implicado na instalação de painéis solares é cada vez menor, uma vez que esta solução se tem vindo a tornar mais popular e comum. Para este facto contribui também a concorrência e a evolução tecnológica.

5. Utilize lâmpadas LED

Se ainda não o fez, faça-o já. Troque as lâmpadas convencionais por lâmpadas LED, uma vez que gastam muito menos e duram mais. As lâmpadas LED podem durar 25 vezes mais do que as lâmpadas incandescentes, com um tempo de vida útil a rondar as 20 e 45 mil horas de utilização. Além disso, as lâmpadas LED permitem poupar cerca de 80% de energia elétrica comparativamente às lâmpadas incandescentes.

Estes números não deixam margem para dúvidas: a utilização de lâmpadas LED deve ser uma prática comum e generalizada em todas as casas portuguesas. Todavia, não deve prescindir dos mesmos cuidados: desligar as luzes sempre que não as usar e ligar apenas quando necessário.

6. Repense as suas deslocações

Também no campo da mobilidade é possível dar importantes passos no sentido da eficiência energética. Quando o automóvel é indispensável, aposte em veículos elétricos. A maior parte das marcas estão a abandonar a produção de veículos a combustão, investindo em alternativas elétricas ou híbridas.

Esta tecnologia garante zero emissões de gases com efeito de estufa e zero emissões de matérias poluentes, ajudando a contribuir para um planeta mais limpo. Além disso, os condutores deste tipo de veículos beneficiam de menos impostos e mais incentivos, como a isenção do pagamento de Imposto Sobre Veículos (ISV) e do pagamento do Imposto Único de Circulação (IUC).

Sempre que possível, troque a utilização do carro por transportes públicos ou bicicleta. Atualmente, as cidades contam com um número cada vez maior de ciclovias, o que torna a sua utilização mais apelativa, segura e agradável. Considere também fazer deslocações a pé, até como parte da sua rotina de exercício físico diário.

4 formas de financiar a transição energética

No seu compromisso com a meta europeia da sustentabilidade, Portugal criou fundos específicos destinados a apoiar financeiramente cidadãos e empresas na transição energética. É importante consultar os websites oficiais de cada medida, para acompanhar a abertura e conclusão de candidaturas, bem como para confirmar a reativação ou renovação das mesmas a cada ano. Passamos a descrever as medidas principais.

1. Programa de Apoio a Edifícios Mais Sustentáveis

O Estado criou o Programa de Apoio a Edifícios Mais Sustentáveis que se destina aos cidadãos que sejam proprietários de edifícios de habitação, para fazer obras ou melhorar a eficiência energética das suas casas. As candidaturas estão encerradas desde o dia 2 de maio, mas é possível que venham a existir novos reforços, pelo que é importante estar atento a próximas atualizações.

Este programa engloba quatro grandes áreas: descarbonização, eficiência energética, eficiência hídrica e a economia circular em edifícios. Prevê reembolsos pelas despesas efetuadas nas residências pela instalação de sistemas de climatização que melhorem os índices de eficiência energética.

Através deste programa, poderá, por exemplo, instalar painéis solares, substituir as janelas e portas da sua casa, investir em isolamento térmico e adquirir bombas de calor, em imóveis construídos ou com licença de habitação até 1 de julho de 2021.
Para serem elegíveis, os candidatos não podem ter dívidas à Segurança Social nem às Finanças, e têm de apresentar documentos de identificação e dos dados do imóvel. Todo o processo é efetuado no website do Fundo Ambiental.

Se a candidatura for aprovada, é reembolsado depois de ter realizado as obras ou alterações no imóvel. Em cada intervenção, as despesas são comparticipadas até 85%, com um valor de reembolso máximo até €7.500 por fração autónoma, podendo ser estendido até €15.000 no caso de um prédio em propriedade total.

2. Casa Eficiente 2020

O Programa Casa Eficiente 2020 consiste numa linha de crédito promovida pelo Estado Português e dinamizada pela Confederação Portuguesa da Construção e do Imobiliário e cofinanciado pelo Banco Europeu de Investimentos e pelos Bancos Comerciais aderentes. Através deste mecanismo, os cidadãos podem contrair um crédito em condições favoráveis para financiar melhorias no desempenho ambiental das suas residências.

3. Incentivos fiscais para o autoconsumo

O Orçamento de Estado para 2023 prevê incentivo fiscais para a produção de energia renovável. Assim, a instalação de painéis solares com um máximo de 1 MW de potência beneficia de isenção do IRS, e é aplicado IVA a 13% sobre os primeiros 100 kWh de energia elétrica obtida a partir de painéis solares com potências contratadas inferiores a 6,9 kVA.

Além disso, a energia excedente produzida pode ser vendida à rede, com uma exclusão de tributação de IRS até ao limite anual de €1.000 euros dos rendimentos resultantes.

4. Crédito para Energias Renováveis

Alguns bancos criaram linhas de crédito específicas para a realização de intervenções em habitações que visem melhorar a eficiência energética.

Através deste tipo de financiamento, consegue ter rapidamente o capital para adquirir qualquer equipamento de produção de energia renovável ou despesas que possibilitem um melhor desempenho ambiental. O financiamento, que pode chegar aos €75.000, não pode ser usado para outro fim que não o investimento em energias renováveis, sendo que os prazos rondam os 24 e 120 meses.

Em regra, as taxas de juro são mais baixas, mas há bancos que cobram comissões e outros encargos, pelo que é importante conhecer todas as condições de cada banco associadas a este tipo de crédito antes de tomar uma decisão.

Concluindo, toda a Europa está empenhada em fazer da transição energética uma prioridade. Assim, pondere dar também o seu próximo passo no sentido de uma maior eficiência, quer na sua habitação, quer nos hábitos diários.

Este é um esforço que passa pelas entidades governativas, e também pela sociedade civil, pelos cidadãos e pelas nossas casas. Com esta informação, estará preparado para começar a fazer a sua parte nesta importante e decisiva transição energética.

Regina Xavier

Sobre Regina Xavier

Responsável pela área de Energia do ComparaJá.pt com a missão de ajudar famílias e empresas a otimizarem os seus custos e a alcançarem sustentabilidade energética. Especialista na implementação de projetos digitais de crédito no sector da Banca e em FinTechs, tendo passado pela consultora Management Solutions e pela Fintech Raize. É mestre em Gestão pelo Instituto de Empresa em Madrid e licenciada em Economia pela Universidade Católica Portuguesa.

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