PPR ou Unit Linked: qual o melhor para poupar para a reforma?

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Cerca de 47% dos portugueses continua a não poupar, consoante o estudo anual de literacia financeira do Observador Cetelem de 2016. Apenas um quinto afirma economizar para a reforma – 78% da população não o faz, o que pode ter um grande impacto nos rendimentos futuros das famílias portuguesas, atendendo à sobrecarga do sistema de pensões. Todavia, a atual fragilidade do sistema financeiro aliada a um cenário de baixas taxas de juro não auguram bons presságios: é possível poupar hoje em dia com taxas de retorno elevadas e garantir um melhor futuro financeiro? Para procurar responder a esta questão, analisámos o mercado e descobrimos duas soluções de poupança garantidas: os PPR e os Unit Linked.

Onde (e no quê) investir numa época de reduzidas taxas de juro (historicamente as mais baixas dos últimos anos)? Eis a questão. Sendo que poupar para a reforma se afigura como uma aplicação financeira de longo prazo, não é fácil tomar uma decisão no presente, não só atendendo ao rendimento disponível que é preciso colocar de parte mensalmente, como também à escassez de produtos no mercado vocacionados para este fim específico.

A necessidade de um produto financeiro desta natureza reside precisamente na capacidade de assegurar a manutenção do estilo de vida e bem-estar após a reforma, o que faz com que seja crucial iniciar este investimento durante a atividade profissional, idealmente entre os 30 e os 35 anos.

A maior caraterística – que é transversal aos produtos de aforro – deste género de aplicações assenta no facto de o consumidor não estar apenas a poupar, mas igualmente a investir, ou seja, a rentabilizar o seu dinheiro conforme os desenvolvimentos do mercado.

Como alternativa às soluções tradicionais de poupança que estão com reduzidas rendibilidades, como é o caso dos depósitos a prazo, surgem os produtos de seguros, nomeadamente do ramo Vida. Dois exemplos destes são precisamente os PPR e os Unit Linked.

Não sendo todos os produtos financeiros adequados a qualquer tipo de investidor, importa salientar quais os atributos que os diferenciam.

Em que consiste um PPR?

Um Plano Poupança Reforma (PPR) constitui-se como uma aplicação financeira destinada a complementar a reforma e através da qual o aforrador entrega um determinado montante – seja de forma periódica ou numa única entrega – a uma companhia de seguros ou a uma sociedade gestora de fundos de pensões que, por sua vez, investe esse dinheiro por forma a gerar retorno.

Na altura em que o consumidor resgata o prémio, recebe, portanto, não apenas o capital que foi acumulando através da poupança que se predispôs a fazer, mas também o rendimento originado pelo investimento.

O PPR funciona como uma apólice de seguro (embora não seja vocacionado para cobrir nenhum risco). Tipicamente, esta aplicação é ideal para os aforradores mais avessos ao risco, que preferem a segurança em detrimento de elevadas rentabilidades, uma vez que a probabilidade de perda do capital investido é mínima.

Para se perceber qual a oferta do mercado em termos de PPR e quanto se pode auferir durante 30 anos de trabalho e até à idade de reforma recorreu-se ao perfil do André, engenheiro informático com 35 anos de idade, que aufere um rendimento mensal líquido de 1.500 euros e que pondera começar a planear o seu futuro financeiro através da constituição de um PPR.

Inicialmente, o André está disposto a poupar 100 euros por mês, valor que aumentará 5% ao ano até ao final do prazo da aplicação. Isto significa que, no final dos 30 anos, quando o André tiver precisamente 65 anos de idade, terá poupado sensivelmente 79.726,62 euros só de capital. A este valor acrescenta-se a rendibilidade gerada pelo PPR que escolher.

Por forma a saber qual o intervalo de valores que pode mediar essa mesma rentabilidade, compararam-se as ofertas de PPR de três seguradoras e dois bancos que apresentaram níveis de crescimento no ano de 2016 – Allianz, Zurich, Lusitânia, Bankinter e Santander:

PPR | Retorno sobre 79.726,62€ após 30 anos
Produto Rendibilidade anual média(1) Encargos com subscrição Comissão de gestão (anual) Comissão de resgate Capital garantido Retorno ao fim de 30 anos
Allianz PPR Ativo 0,50% 1,50% 0,50% n/a Sim 4.968,98€
Santander PPR Capital Garantido 1,73% 1,50% 1,50% 3% Sim 19.133,39€
Bankinter PPR Rendimento Garantido S3 1,89% 1% 1,50% 2% Sim 21.204,77€
PPR Zurich 1,96% n/a 1% 2% Não 22.129,18€
Lusitânia Poupança Reforma PPR 4,18% 2% 1,20% 2% Sim 58.212,29€
  • (1) Com base na rendibilidade dos últimos 3 anos civis.

Para cada um dos PPR apresentados na tabela acima, compararam-se diversos aspetos. Em primeiro lugar, a rendibilidade anual média que cada uma destas soluções gerou nos últimos três anos civis. Com base nesta taxa foi possível aferir, assumindo-se a manutenção das condições de remuneração dos produtos, qual seria o retorno ao fim de 30 anos.

Em segundo lugar, apontam-se os encargos com subscrição, que correspondem a uma percentagem que é deduzida sobre a quantia que o aforrador entrega para investir. A título exemplificativo, considerando os 1200 euros que o André aplicou no primeiro ano, se a sua comissão de subscrição for de 2%, tal significa que o montante que ficará a render será, na realidade, de 1176 euros.

Por sua vez, a comissão de gestão é cobrada anualmente sobre a quantia acumulada nesse ano. No momento do resgate do PPR é aplicada a comissão de resgate sobre o rendimento acumulado até ao final do prazo. Existem também PPRs que garantem o capital investido e outros não.

Conforme a tabela apresentada, é possível verificar que a solução Allianz PPR Ativo garante um retorno de  4.968,98 euros, um valor bastante reduzido quando comparado com a opção Lusitânia Poupança Reforma PPR, cuja rendibilidade ao fim de 30 anos é de 58.212,29 euros. Enquanto que a rendibilidade anual média da primeira é de 0,50%, a segunda é de 4,18%. No entanto, o PPR da Lusitânia é o que possui os encargos com comissões mais elevados.

Já as soluções Santander PPR Capital Garantido, Bankinter PPR Rendimento Garantido S3 e PPR Zurich, com rendibilidades anuais médias semelhantes – 1,73%, 1,89% e 1,96%, respetivamente – garantem retornos entre 19 mil e 22 mil euros, aproximadamente. Os dois bancos em análise (Santander e Bankinter) garantem rentabilidades interessantes à semelhança das seguradoras.

Para os investidores dinâmicos: Unit Linked pode ser a solução

Os Unit Linked são contratos de seguros que estão ligados a fundos de investimento, de médio e longo prazo (tal como os PPR), sendo calculados através de Unidades de Conta (UC) e mediante uma cotação que varia ao longo do tempo, sendo qualificados como Instrumentos de Captação de Aforro Estruturado (ICAE).

A rentabilidade deste tipo de produto varia conforme a evolução do valor dos ativos que o constituem, que, por sua vez, oscila ao sabor do mercado.

Em termos de tipologia, podem ser considerados «fechados» quando apenas permitem entregas únicas (i.e., o aforrador entrega um determinado montante no início e será somente esse mesmo capital que será investido) ou «abertos» caso se possa proceder a entregas periódicas, sendo que estas entregas são geridas através de vários fundos autónomos com investidores que dispõem de fundos com níveis de risco diferenciados e que, na sua essência, compõem o Unit Linked.

Tipicamente – e ao contrário do que sucede com os PPR -, o perfil do investidor neste tipo de aplicação é mais dinâmico (e até certo ponto arrojado), no sentido de estar disposto a assumir maiores riscos (nomeadamente rendimento nulo e, em certos casos, perda de capital) em prol de um retorno mais elevado (muitas vezes até superior à média do mercado).

O risco desta aplicação é, assim, superior ao dos PPR na medida em que a sua rendibilidade depende, única e exclusivamente, da performance dos fundos que integram o Unit Linked. Consequentemente, o rendimento deste produto está dependente das decisões que os gestores dos fundos que o compõem tomam, não havendo garantia de rendibilidade e, in extremis, de recuperar o capital investido.

A diversidade deste tipo de produtos financeiros complexos é ampla no mercado e para se ter uma noção compararam-se as ofertas das seguradoras Ocidental, Mapfre, Groupama e Allianz e ainda a solução do banco Santander:

Unit Linked
Produto Tipo de fundo Capital garantido Entrega Comissão de contratação Comissão de resgate Rentabilidade últimos 4 anos Nível de risco
Ocidental Seguros Seguro Millennium Trimestral 2017,4.ª série Fechado Não Única. Mínimo = 1.000€ Até 1% Valor das UC à data do resgate – valor das UC à data do investimento Não disponível 1
Santander Agrupamento de Fundos Private, Elite Equilibrado Aberto Não Inicial = 30.000€. Periódicas = 25.000€ n/a Até 1% Entre 5,5% e 9% 3
Mapfre Investimento Certo – Não Normalizado Fechado Sim Única. Mínimo = 500€ Até 1,25% Até 2% Não disponível 1
Groupama Equilibre Aberto Não Inicial = 1.000€. Periódicas = 500€ n/a Entre 0,25% e 1% Entre 3,87% e 16,64% 4
Allianz Híbrido Aberto Não Inicial = 250€. Periódicas = 25€/mês Até 1,5% Até ao máximo de revalorização da poupança Não disponível 3

É possível constatar, pela tabela acima, que os produtos com menor nível de risco (correspondentes ao valor 1) integram fundos fechados, permitindo apenas uma entrega única inicial, e não disponibilizam um histórico de rendibilidade, correspondendo ao Mapfre Investimento Certo – Não Normalizado e ao Ocidental Seguros Seguro Millennium Trimestral 2017 4.ª série.

No que concerne à rendibilidade, atesta-se a regra de ouro em que maior risco corresponde a maior rendibilidade, como bem demonstra o caso do Groupama Equilibre, com um alerta de risco máximo considerado pela CMVM, mas cuja rendibilidade se fixou entre 3,87% e 16,64% nos últimos quatro anos, valores que contrastam, por exemplo, com o Santander Totta Agrupamento de Fundos Private Elite Equilibrado (entre 5,5% e 9%, mas com risco mais moderado).

Ainda no âmbito da comparação surge o produto Allianz Híbrido, com fundo aberto, permitindo várias entregas periódicas e cuja comissão de contratação (até 1,5%) é a mais elevada e com nível de risco moderado.

É de salientar que uma das grandes vantagens dos Unit Linked reside na questão fiscal: se o resgate decorrer após mais de oito anos desde a subscrição do produto, então, à partida, a taxa de IRS aplicada não deverá ultrapassar 11%. Portanto, a lei premeia quem investe em seguros de vida a mais de 8 anos, incentivando a poupança de longo prazo.

Como escolher a melhor solução?

“Tudo depende da maior ou menor aversão ao risco de perda do capital investido, de quanto se está disposto a aplicar e da rentabilidade que é esperada com o investimento. Estes três fatores dão origem ao perfil de risco do investidor e ditam qual a solução mais adequada para um determinado consumidor. Efetivamente, comparar diversas soluções, ver os benefícios e desvantagens de cada uma e aconselhar-se ao máximo é preponderante antes de se tomar uma decisão”, aconselha Miguel Mamede, responsável da área de Seguros do ComparaJá.pt.

“Se em termos de tipologia de produto não existem muitas soluções de poupança para a reforma, já dentro do campo dos produtos financeiros complexos a oferta é ampla. Nas mais de mil e uma caraterísticas que cada solução possui, a complexidade e a rendibilidade variam exponencialmente e o risco também. Especialmente no que toca a este último fator, é deveras importante saber de antemão qual o risco que se está a correr e se se está disposto a arriscar para gerar mais dinheiro para a reforma. Não existem produtos isentos de risco”, sublinha o especialista.

 Miguel Mamede explica que “Mesmo com os PPR – cujo capital é, na maior parte das vezes, garantido – é necessário confirmar se os encargos com comissões e afins que se tem com o produto compensam face à taxa de rendibilidade média anual. Se os primeiros igualarem ou suplantarem a segunda, então claramente o investimento não compensa. Importa assim consultar as soluções de vários bancos e seguradoras, verificar as comissões praticadas, saber as exigências ao nível dos reforços e, obviamente, olhar para o histórico de retorno para se ter uma noção do desempenho”.

 “No caso dos Unit Linked, cujo nível de risco nem sempre é facilmente percetível para o consumidor, é preciso ter ainda maior cautela, devendo consultar-se atentamente a ficha de Informações Fundamentais ao Investidor (IFI) que as instituições são legalmente obrigadas a fornecer”, recomenda o responsável.

 “Efetivamente, optar por uma ou outra opção de poupança é fundamental para os consumidores que pretendam assegurar a sua qualidade de vida após a reforma. Atualmente existem três milhões de pensionistas em Portugal e quase um milhão destes recebe 250 a 500 euros de pensão por mês”, conclui o Vice-Presidente do ComparaJá.pt.

 

Nair Dos Santos

Sobre Nair Dos Santos

Especializada em Economia Internacional, a Nair iniciou o seu percurso profissional em Marketing Institucional. Alia a sua criatividade ao universo financeiro com o objetivo de ajudar os portugueses a melhorar a sua literacia financeira e contribuir para o desenvolvimento de uma economia sustentável.

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