Hipoteca inversa em Portugal: existe e que alternativas há?

autor comparajá isabel crédito habitação

Escrito por:

Isabel Pires
rita sogalho

Aprovado por:

Rita Sogalho

Já ouviste falar de transformar a casa em rendimento sem a vender? A hipoteca inversa não existe em Portugal, mas há alternativas. Vê quais são e o que considerar.

Hipoteca inversa em Portugal

Muitas pessoas chegam à reforma com um património valioso, a casa onde vivem, mas com uma pensão que mal chega para as despesas do dia a dia. É aqui que entra a ideia da hipoteca inversa, um produto que promete transformar a casa em dinheiro sem ter de sair dela. O problema é que, em Portugal, esse produto não existe. Mas há caminhos legais para chegar a um resultado parecido. Neste artigo explicamos o que é a hipoteca inversa, porque é que não a encontras cá e que alternativas tens para rentabilizar a casa na reforma.

O que é a hipoteca inversa?

A hipoteca inversa, também conhecida por hipoteca reversa, é um produto financeiro pensado para pessoas mais velhas, normalmente com mais de 65 anos, que são donas da casa onde vivem. Em vez de seres tu a pagar uma prestação ao banco, como acontece no crédito habitação, é o banco que te paga a ti, usando a casa como garantia.

O valor pode ser entregue de uma só vez ou em pagamentos mensais que complementam a reforma. Continuas a viver na tua casa e a dívida só é saldada mais tarde, em regra quando o titular falece ou deixa de viver na habitação. Nessa altura, os herdeiros podem pagar o valor em dívida e ficar com a casa, ou deixar que o imóvel seja vendido para liquidar o empréstimo.

A hipoteca inversa existe em Portugal?

Não. Atualmente nenhum banco em Portugal comercializa hipotecas inversas. A principal razão é a ausência de um enquadramento legal específico para este produto, a que se juntam os riscos que ele representa para consumidores numa fase mais vulnerável da vida.

Em países como os Estados Unidos, a Espanha ou o Reino Unido este tipo de solução já existe há anos. Em Portugal, por enquanto, é apenas uma figura de que se fala, mas que não podes contratar. Por isso, se o teu objetivo é usar a casa para teres mais rendimento na reforma, tens de olhar para outras vias.

Então como posso rentabilizar a minha casa na reforma?

Apesar de a hipoteca inversa não existir, há várias formas legais de transformar a casa, ou parte do seu valor, em dinheiro. Cada uma tem regras, vantagens e riscos diferentes, e nem todas te deixam continuar a viver na habitação. Vê as principais.

Vender a nua-propriedade e manter o usufruto

Esta é, talvez, a alternativa mais próxima da hipoteca inversa. A propriedade de um imóvel pode ser dividida em duas partes: a nua-propriedade e o usufruto. Quando vendes a nua-propriedade, transferes a titularidade da casa para o comprador, mas reservas para ti o usufruto vitalício, ou seja, o direito de continuar a viver nela, ou até de a arrendar, até ao fim da vida.

Na prática, recebes uma quantia em dinheiro de uma só vez, continuas a morar na tua casa e não pagas qualquer renda. Como o comprador só fica com o pleno uso do imóvel mais tarde, paga um valor inferior ao preço de mercado. Esse valor depende muito da tua idade: quanto mais velho fores, mais valioso é o usufruto que reténs e, por isso, menor tende a ser o montante que recebes pela nua-propriedade.

Vender a casa em troca de uma renda vitalícia

Em vez de receberes tudo de uma vez, podes vender o imóvel a troco de uma renda vitalícia, ou seja, um pagamento mensal que recebes até ao fim da vida. É uma forma de garantir um rendimento regular que complementa a pensão.

Esta solução pode ser combinada com a reserva de usufruto, permitindo-te continuar a viver na casa enquanto recebes a renda. É essencial que o contrato fique muito bem definido, com aconselhamento jurídico, para proteger ambas as partes e deixar claro o que acontece em cada cenário.

Vender e voltar a arrendar a mesma casa

Outra hipótese é vender a casa e, no mesmo momento, celebrar um contrato de arrendamento que te permite continuar a viver lá como inquilino. Recebes o valor da venda e, em troca, passas a pagar uma renda mensal ao novo proprietário.

Esta via dá-te acesso imediato a todo o capital da casa, mas tem uma desvantagem clara: deixas de ser dono e passas a ter as despesas e a incerteza de quem arrenda. Antes de avançares, compara sempre as condições e percebe se vender é mesmo a melhor opção, por exemplo se conseguirias um valor mais alto a vender casa sem contratar uma imobiliária.

Pedir um crédito com garantia da casa

Se não queres vender, podes pedir um empréstimo dando a casa como garantia, através de um crédito hipotecário. Ao contrário da hipoteca inversa, aqui és tu que pagas a prestação ao banco, o que pode ser difícil de suportar com uma pensão.

Mesmo assim, em alguns casos pode compensar, sobretudo se precisares de uma quantia pontual e tiveres rendimento para pagar a mensalidade. Antes de decidir, vale sempre a pena comparar as condições de crédito habitação no mercado para perceberes o custo total da operação.

Que impostos tenho de considerar?

Quando vendes um imóvel, podes ter de pagar IRS sobre a mais-valia, ou seja, sobre o ganho entre o valor a que compraste e o valor a que vendes. Para perceberes quanto poderias pagar, podes usar o simulador de mais-valias.

Há, no entanto, um regime especialmente relevante para quem está na reforma. Se tiveres 65 anos ou mais, ou já estiveres reformado, e reinvestires o valor da venda da tua habitação própria e permanente num seguro do ramo vida, num PPR, num fundo de pensões aberto ou no regime público de capitalização, no prazo de seis meses, podes ficar isento de mais-valias. Vê em detalhe como vender casa depois dos 65 anos sem pagar IRS e conhece as opções de PPR para a reforma.

Vale a pena? Cuidados a ter antes de decidir

Transformar a casa em rendimento é uma decisão de peso, muitas vezes irreversível, e que afeta não só a tua vida como a herança que deixas. Antes de avançar, tem em conta o seguinte:

  • Envolve a família na conversa. Estas soluções reduzem ou eliminam a casa enquanto herança, por isso é importante falar com os filhos e herdeiros.

  • Procura aconselhamento jurídico independente. Um advogado ou notário ajuda-te a perceber o contrato e a evitar cláusulas que te prejudiquem.

  • Manda avaliar o imóvel por um profissional para saberes quanto vale realmente e não aceitares um valor abaixo do justo.

  • Desconfia de propostas com pressão ou urgência e nunca assines nada que não percebas por completo.

  • Faz as contas ao longo prazo, incluindo impostos, despesas e o impacto no teu rendimento futuro.

Perguntas frequentes sobre a hipoteca inversa

Posso mesmo continuar a viver na casa?

Depende da solução. Na venda da nua-propriedade com reserva de usufruto e, em regra, na renda vitalícia com usufruto, continuas a viver na casa até ao fim da vida. Na venda com arrendamento, ficas como inquilino e passas a pagar renda. Já num crédito com garantia da casa, mantens a propriedade desde que continues a pagar as prestações.

Os meus herdeiros ficam sem nada?

Quando vendes a nua-propriedade ou a casa, o imóvel deixa de fazer parte da herança. No entanto, o dinheiro que recebes, ou as rendas, passam a integrar o teu património e podem ser transmitidos. O ideal é falar com a família e, se possível, com um advogado, para planear este ponto.

Qual a diferença entre vender a nua-propriedade e a renda vitalícia?

Na venda da nua-propriedade recebes, em regra, um montante único e reservas o usufruto. Na renda vitalícia, recebes pagamentos mensais até ao fim da vida em vez de um valor de uma só vez. As duas soluções podem até ser combinadas no mesmo contrato.


rita sogalho
Rita Sogalho
Team Leader de Consultores Crédito Habitação