Comprar casa é, para a maioria das famílias, o maior compromisso financeiro de uma vida. Antes de avançares com uma proposta, precisas de avaliar o imóvel em três dimensões: estado físico, situação legal e valor para efeitos de crédito. Esta análise protege-te de surpresas dispendiosas e influencia directamente as condições que o banco te oferece, do LTV ao spread do crédito habitação. Neste artigo, explicamos cada etapa para que chegues à escritura com confiança.
O que devo verificar na inspeção física do imóvel?
A inspeção física é o primeiro filtro. Mesmo que o imóvel pareça impecável nas fotografias do anúncio, uma visita presencial atenta revela problemas que podem custar milhares de euros em obras.
Começa pelo exterior. Verifica a fachada, procurando fissuras, manchas de humidade e o estado da cobertura. Se o prédio for antigo, pergunta ao condomínio se existem obras previstas ou derramas pendentes.
No interior, concentra-te nestes pontos:
Estrutura e paredes: fissuras diagonais podem indicar problemas de fundação; manchas escuras junto ao tecto ou ao rodapé sugerem infiltrações
Canalização: abre todas as torneiras em simultâneo e verifica a pressão da água; observa o estado dos tubos visíveis (chumbo ou ferro galvanizado são sinais de rede envelhecida)
Instalação eléctrica: confirma se o quadro eléctrico tem disjuntores diferenciais e se as tomadas funcionam correctamente
Caixilharia e isolamento: vidros simples e caixilharias sem corte térmico penalizam o certificado energético e aumentam a factura de energia
Áreas e divisões: mede as divisões e compara com a planta do imóvel disponível na câmara municipal
Se identificares obras por legalizar, como ampliações não licenciadas, esse custo deve entrar no teu orçamento antes de pedires financiamento. O banco pode recusar garantir um imóvel com desconformidades urbanísticas.
Para imóveis usados ou com sinais de degradação, considera contratar um perito avaliador independente ou um engenheiro civil. O investimento de algumas centenas de euros pode evitar um erro de dezenas de milhares.
Que documentos legais preciso de consultar antes de comprar casa?
A inspeção documental é tão importante quanto a inspeção física. Sem ela, podes comprar um imóvel com ónus ocultos ou irregularidades que impedem o registo da hipoteca imobiliária.
Estes são os documentos essenciais:
| Documento | Onde obter | Para que serve |
| [Caderneta predial urbana](/credito-habitacao/artigos/caderneta-predial-urbana) | Portal das Finanças | Confirma a descrição fiscal, a área e o [valor patrimonial tributário](/credito-habitacao/artigos/valor-patrimonial-tributario) (VPT) |
| Certidão permanente do registo predial | Instituto dos Registos e Notariado (IRN) | Revela o proprietário, hipotecas, penhoras ou outros ónus |
| [Licença de utilização](/credito-habitacao/artigos/licenca-de-utilizacao) | Câmara municipal | Comprova que o imóvel pode ser utilizado para habitação |
| [Ficha técnica de habitação](/credito-habitacao/artigos/ficha-tecnica-de-habitacao) | Promotor ou câmara | Descreve materiais, equipamentos e garantias (obrigatória para imóveis posteriores a 2004) |
| Certificado energético | ADENE | Classifica a eficiência energética do imóvel de A+ a F |
Verifica na certidão permanente se existem hipotecas a favor de outros credores. Se existirem, o vendedor terá de as distratá-las antes ou no acto da escritura. Confirma também se há direito de preferência de terceiros, como arrendatários ou a câmara municipal em zonas de reabilitação urbana.
O VPT, indicado na caderneta predial, é relevante para o cálculo dos impostos na compra de casa, nomeadamente o IMT e o Imposto do Selo. Não confundas este valor com o valor de mercado nem com o valor de avaliação bancária: são três conceitos distintos com finalidades diferentes.
Reúne todos estes documentos para crédito habitação antes de formalizares o pedido ao banco. Assim aceleras as fases de aprovação do crédito e evitas atrasos que podem comprometer a data do contrato promessa de compra.
Não confundas o valor de mercado, o valor de avaliação bancária e o valor patrimonial tributário (VPT): são três conceitos distintos com finalidades diferentes.
Como funciona a avaliação bancária e quem a faz?
Quando pedes crédito habitação, o banco encomenda uma avaliação bancária do imóvel a um perito avaliador independente, inscrito na CMVM. Esta avaliação é regulada pela Instrução do Banco de Portugal n.º 5/2019, que estabelece critérios técnicos para imóveis dados em garantia de crédito.
O processo segue, em regra, estas etapas:
Submetes o pedido de crédito e o banco agenda a avaliação
O perito visita o imóvel, analisa a localização, o estado de conservação, as áreas e as características construtivas
O perito compara o imóvel com transações recentes de imóveis semelhantes na mesma zona
O relatório é entregue ao banco com o valor de avaliação para efeitos de garantia
O custo da avaliação é suportado por ti, mesmo que o crédito não seja aprovado. Em Portugal, esse custo situa-se tipicamente entre 150 € e 300 €, variando conforme o tipo de imóvel e a instituição bancária. A validade do relatório é geralmente de seis meses, embora cada banco possa aplicar um prazo diferente.
Para validares o preço pedido pelo vendedor antes da avaliação formal, consulta os dados trimestrais de preço mediano por m² que o INE publica por município. A Confidencial Imobiliário (SIR) complementa essa informação com índices de preços residenciais por zona.
Como o valor de avaliação bancária afeta o meu LTV e o spread do crédito?
O LTV (Loan-to-Value) é o rácio entre o montante de financiamento e o valor de avaliação bancária. Este rácio determina o risco que o banco assume e, por consequência, o spread e as restantes taxas de juro do crédito que te são propostas.
O Banco de Portugal recomenda que o LTV não exceda 90% para habitação própria permanente e 80% para outros fins. Na prática, quanto menor o LTV, mais favoráveis tendem a ser as condições. Um LTV de 70%, por exemplo, pode permitir-te negociar o spread bancário de forma significativa.
Imagina que o preço de compra é 200.000 € e a avaliação bancária devolve 195.000 €. O banco calcula o LTV sobre o menor dos dois valores: 195.000 €. Se financiares 175.000 €, o teu LTV será de aproximadamente 89,7%.
Este rácio influencia:
O spread que o banco aplica sobre a EURIBOR
A necessidade de seguros adicionais ou garantias complementares
O montante máximo de financiamento disponível
O custo total do crédito (MTIC) ao longo do contrato
Por isso, a avaliação bancária não é um mero formalismo: é o número que define quanto o banco te empresta e a que preço. Antes de assinar qualquer compromisso, pede uma pré-aprovação bancária para saberes o intervalo de financiamento a que te podes candidatar, e compara bancos para crédito para perceberes como diferentes instituições ponderam o LTV.
O que posso fazer se a avaliação ficar abaixo do preço de compra?
Uma avaliação bancária inferior ao preço de compra é mais comum do que imaginas, especialmente em mercados com subidas rápidas de preços. Quando isso acontece, o banco financia com base no valor mais baixo, o que significa que terás de cobrir a diferença com capitais próprios.
Tens várias opções para lidar com esta situação:
Reforçar a entrada: se tiveres poupanças adicionais, podes cobrir a diferença entre a avaliação e o preço de compra
Renegociar o preço com o vendedor: apresenta o relatório de avaliação como argumento para baixar o valor do negócio
Pedir avaliação a outro banco: diferentes bancos utilizam diferentes peritos e metodologias, pelo que os resultados podem variar. Submeter o pedido em mais do que uma instituição é legítimo e recomendável
[Renegociar condições do crédito](/credito-habitacao/artigos/renegociar-credito): ajustar o prazo ou aceitar um spread ligeiramente superior pode alterar o enquadramento da proposta
Considerar [transferir o crédito habitação](/credito-habitacao/artigos/compensa-fazer-transferencia-de-credito) mais tarde, caso aceites condições menos favoráveis agora para fechar o negócio
Antes de tomares qualquer decisão, usa o simulador para perceberes o impacto de cada cenário na tua prestação mensal. Assim, saberás exactamente quanto pagas por mês conforme o montante de entrada e o spread proposto.
A ComparaJá é regulada pelo Banco de Portugal ao abrigo do Regime Jurídico da Intermediação de Crédito (RJCI), o que te garante acesso a propostas de vários bancos parceiros num processo transparente e supervisionado. Através da análise de crédito bancária, podes comparar condições reais e tomar uma decisão informada.
A ComparaJá é regulada pelo Banco de Portugal ao abrigo do Regime Jurídico da Intermediação de Crédito (RJCI), o que te garante acesso a propostas de vários bancos parceiros num processo transparente e supervisionado.
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